HPV: o que é, como pega, sintomas, se tem cura e a vacina
O papilomavírus humano é a infecção sexualmente transmissível mais comum do mundo. Cerca de 600 milhões de pessoas estão infectadas por algum tipo de HPV no planeta (OPAS/OMS, 2023). No Brasil, o Estudo POP-Brasil, conduzido pela Fiocruz em parceria com o Ministério da Saúde, encontrou HPV em 54,6% dos jovens de 16 a 25 anos com vida sexual ativa (PROADI-SUS/Fiocruz, 2024).
Apesar de tão prevalente, o HPV assusta mais do que deveria na maioria dos casos. Em 90% das pessoas, o próprio sistema imunológico elimina o vírus sem que a pessoa nem saiba que estava infectada. O problema está nos 10% restantes, especialmente quando os tipos de alto risco persistem sem diagnóstico ou acompanhamento.
Neste texto, você vai entender o que é o HPV, como ele se transmite, quais são os sintomas, se tem cura, quem deve tomar a vacina e o que mudou com a nova lei que garante direitos trabalhistas para quem precisa fazer exames preventivos.
O X da questão
O HPV afeta 54,6% dos jovens sexualmente ativos no Brasil (Fiocruz/PROADI-SUS, 2024) e causa 99% dos cânceres de colo do útero (OMS). Em 90% dos casos, o organismo elimina o vírus naturalmente em até 24 meses. A vacina gratuita no SUS e o exame papanicolau são as principais ferramentas de prevenção. Desde 6 de abril de 2026, a Lei 15.377 garante até 3 dias de ausência remunerada por ano para exames preventivos.
O que é HPV?
O HPV (papilomavírus humano) é um grupo de mais de 200 tipos de vírus que infectam a pele e as mucosas. No Brasil, 54,6% dos jovens de 16 a 25 anos com vida sexual ativa carregam o vírus, sendo 38,4% com tipos de alto risco oncogênico (PROADI-SUS/Fiocruz, 2024). A infecção é tão comum que a maioria das pessoas sexualmente ativas entra em contato com o vírus em algum momento da vida.
Os tipos de HPV se dividem em dois grupos principais:
Baixo risco: tipos 6 e 11, responsáveis pela maioria das verrugas genitais (condilomas). Raramente causam câncer.
Alto risco: tipos 16 e 18, presentes em 76% dos cânceres de colo do útero. São os alvos principais da vacina.
A grande maioria das infecções é assintomática. O vírus infecta as células da superfície da pele e das mucosas sem entrar na corrente sanguínea, o que explica por que muitas pessoas nunca sabem que foram infectadas.
O HPV pode ser encontrado no colo do útero, vagina, vulva, pênis, ânus e garganta. Cada localização tem seu próprio padrão clínico e risco associado, com implicações diferentes para homens e mulheres.
Como o HPV se transmite?
O HPV se transmite por contato pele a pele durante a atividade sexual. O preservativo reduz em até 70% o risco de transmissão genital (OMS, 2024), mas não elimina completamente o risco, pois o vírus pode estar em áreas da pele não cobertas. Por isso, a vacina é o método de prevenção mais eficaz, especialmente antes do início da vida sexual.
As principais vias de transmissão são:
Contato genital com área infectada, com ou sem penetração
Sexo oral, transmitindo o vírus para boca e garganta
Contato manual-genital com microlesões na pele
Da mãe para o bebê durante o parto vaginal (raro, pode causar papilomatose respiratória recorrente)
Não há transmissão por superfícies, compartilhamento de utensílios, abraços ou qualquer forma de contato casual. O vírus precisa de mucosa ou pele com abrasão para se instalar.
Quais são os sintomas do HPV?
A maioria das infecções por HPV não causa sintoma algum. A pessoa carrega o vírus, pode transmiti-lo e elimina naturalmente sem nunca saber que esteve infectada (OMS, 2024). Quando há sintomas, o mais comum são as verrugas genitais, causadas pelos tipos de baixo risco 6 e 11.
As verrugas genitais aparecem como pequenas protuberâncias na região genital ou anal, isoladas ou em cacho. Podem ser lisas ou rugosas, de cor similar à pele ou levemente avermelhadas. Na maioria dos casos não são dolorosas, mas podem causar coceira ou desconforto.
Nos tipos de alto risco, como 16 e 18, a infecção é silenciosa. O vírus age nas células do colo do útero sem causar sintomas perceptíveis, podendo provocar alterações que só aparecem no exame papanicolau, às vezes anos depois da infecção.
Sinais que justificam avaliação médica:
Verrugas ou caroços na região genital ou anal
Sangramento vaginal fora do período menstrual ou após relação sexual
Dor pélvica persistente sem causa aparente
Alteração no resultado do papanicolau
O que muda para você com a Lei 15.377/2026
Desde 6 de abril de 2026, toda empresa com empregados regidos pela CLT é obrigada a disponibilizar informações sobre campanhas de vacinação, HPV e cânceres de mama, colo do útero e próstata, além de orientar sobre o acesso a serviços de diagnóstico (Lei 15.377/2026, Planalto). É a primeira vez que a CLT inclui obrigações específicas de comunicação em saúde preventiva para empregadores.
O que a lei garante ao trabalhador:
Direito a se ausentar por até 3 dias a cada 12 meses para exames preventivos de HPV e cânceres cobertos pela lei, sem desconto no salário (art. 473, XII, da CLT).
Direito a receber informações claras sobre campanhas de vacinação e onde acessar os serviços de diagnóstico.
O que a empresa deve fazer:
Divulgar informações em conformidade com as orientações do Ministério da Saúde.
Promover ações de conscientização, como palestras, comunicados ou material informativo.
Orientar os empregados sobre como e onde realizar os exames.
A lei se aplica a todas as empresas, independentemente do porte ou setor. Não há exigência de que a empresa forneça os exames, apenas que informe e permita a ausência remunerada.
Se o seu empregador ainda não está cumprindo essas obrigações, você pode levar a questão ao RH, ao sindicato da categoria ou à Delegacia Regional do Trabalho.
HPV tem cura?
Em 90% dos casos, o organismo elimina o vírus naturalmente em até 24 meses, sem nenhum tratamento específico (OMS, 2024). Esse dado é essencial para desmistificar o HPV: a maioria das infecções se resolve por conta própria, especialmente em pessoas com sistema imunológico saudável.
O que acontece com o HPV no organismo
Desfecho da infecção em pessoas sem tratamento específico

Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS), 2024
Não existe medicamento antiviral que elimine o HPV diretamente. O tratamento é direcionado às manifestações da infecção:
Verrugas genitais: cremes tópicos (imiquimode, podofilotoxina) ou remoção por crioterapia, eletrocauterização ou laser.
Lesões precursoras no colo do útero: conização ou outros procedimentos, conforme o grau da lesão identificado na colposcopia.
Cânceres associados: cirurgia, radioterapia ou quimioterapia, dependendo do estadiamento.
A pessoa que já teve HPV pode ser reinfectada pelo mesmo tipo ou por um tipo diferente. Por isso, a vacina e o acompanhamento periódico continuam sendo recomendados mesmo para quem já foi diagnosticado.
Qual é a relação entre HPV e câncer?
O HPV é responsável por 99% dos cânceres de colo do útero, que é a causa mais conhecida, mas o vírus está longe de afetar apenas mulheres (OMS, 2024). Os tipos de alto risco causam cânceres em diferentes partes do corpo, em homens e mulheres, tornando a prevenção uma questão de saúde pública para toda a população.
Proporção de cânceres causados por HPV
Proporção por localização anatômica

Fonte: OMS e CDC, 2024
O INCA estima 19.300 novos casos de câncer de colo do útero por ano no Brasil no triênio 2026-2028, alta de 13% em relação ao período anterior (INCA, fev. 2026). São cerca de 6.000 mortes por ano, com taxa de 4,51 óbitos por 100 mil mulheres.
A boa notícia é que o câncer de colo do útero é evitável e tratável quando detectado cedo. O intervalo entre a infecção por HPV de alto risco e o desenvolvimento de câncer cervical é de 10 a 20 anos em média. Essa janela é a razão pela qual o rastreamento periódico salva vidas.
HPV no homem: o vírus também afeta homens?
O HPV é igualmente comum em homens: a prevalência entre homens de 18 a 70 anos no Brasil é estimada em 72,3% para qualquer tipo de HPV (OPAS/OMS, 2023). A diferença é que a infecção raramente causa sintomas visíveis no homem e com menor frequência evolui para doenças graves.
Nos homens, o HPV pode causar:
Verrugas na região genital e anal (tipos de baixo risco 6 e 11)
Câncer peniano: 63% dos casos são causados por HPV
Câncer anal: 90% dos casos
Câncer de orofaringe: 70% dos casos, principal câncer relacionado ao HPV em homens nos países desenvolvidos
O homem é um vetor importante de transmissão: pode carregar e passar o vírus sem apresentar nenhum sintoma. É por isso que a vacinação masculina é tão relevante quanto a feminina. Desde 2017, o SUS oferece a vacina gratuitamente para meninos de 11 a 14 anos.
Não existe exame equivalente ao papanicolau para rastreamento rotineiro do HPV em homens. A recomendação é acompanhamento médico periódico com urologista ou dermatologista. Para homens com prática de sexo anal receptivo, a anuscopia é indicada para rastreamento de lesões anais.
HPV na boca: é possível ter HPV oral?
Sim, o HPV pode afetar a boca e a garganta. O HPV oral, transmitido principalmente pelo sexo oral, responde por até 70% dos cânceres de orofaringe diagnosticados atualmente, incluindo amígdalas, base da língua e palato mole (CDC, 2024). Nos Estados Unidos, o câncer de orofaringe relacionado ao HPV já ultrapassou o câncer cervical em incidência.
No Brasil, a tendência de aumento também é observada, embora ainda não tenha atingido os níveis norte-americanos. Os sinais que podem indicar HPV oral incluem:
Lesões ou úlceras que não cicatrizam na boca ou garganta
Dificuldade para engolir persistente
Dor de garganta sem causa infecciosa identificada
Nódulos no pescoço
Rouquidão sem motivo aparente
Não existe exame de rastreamento padronizado para HPV oral na população geral. A investigação começa pelo exame clínico com dentista, otorrinolaringologista ou oncologista. A vacina HPV protege contra os tipos 16 e 18, principais causadores do câncer de orofaringe.
A vacina HPV: quem deve tomar e como funciona?
No Brasil, a cobertura vacinal chegou a 82,83% entre meninas de 9 a 14 anos e 67,26% entre meninos de 11 a 14 anos em 2024, superando em mais de cinco vezes a média global de 12% (Ministério da Saúde, ago. 2025). Os resultados práticos já aparecem nos dados de hospitalização.
Cobertura vacinal HPV no Brasil (2024)
Meninas, meninos e meta do Ministério da Saúde

Fonte: Ministério da Saúde, agosto 2025
Um estudo publicado em dezembro de 2025 na revista Human Vaccines and Immunotherapeutics analisou hospitalizações no Brasil entre 2014 e 2019 e encontrou redução de 66% nas internações por neoplasia intraepitelial cervical de alto grau e de 77% nas hospitalizações por verrugas anogenitais em meninas vacinadas (Agência Brasil, dez. 2025). Para meninos, a redução nas internações por verrugas anogenitais foi de 50,9%.
Quem pode tomar a vacina HPV gratuitamente pelo SUS:
Meninas de 9 a 14 anos: 2 doses com intervalo de 6 meses
Meninos de 11 a 14 anos: 2 doses com intervalo de 6 meses
Pessoas vivendo com HIV, transplantados e pacientes oncológicos: até 45 anos, 3 doses
Para quem está fora dessa faixa, a vacina está disponível em clínicas privadas em duas versões: quadrivalente (tipos 6, 11, 16, 18) e nonavalente (9 tipos). O esquema para adultos é de 3 doses. A vacina é mais eficaz antes do início da vida sexual, mas também beneficia adultos jovens já sexualmente ativos.
Exames preventivos: papanicolau e rastreamento do HPV
O papanicolau detecta alterações celulares no colo do útero antes que evoluam para câncer, com eficácia superior a 80% na identificação de lesões precursoras quando realizado regularmente, segundo o Ministério da Saúde. É o principal exame de rastreamento do câncer cervical no Brasil, disponível gratuitamente no SUS em todas as unidades básicas de saúde.
Recomendação do Ministério da Saúde para o papanicolau:
Início aos 25 anos para mulheres com vida sexual ativa
A cada 3 anos, após dois resultados normais consecutivos com intervalo de 1 ano
Mulheres acima de 64 anos com dois exames negativos nos últimos 5 anos podem encerrar o rastreamento
Além do papanicolau, outros exames integram o rastreamento de cânceres relacionados ao HPV:
Teste de DNA-HPV: identifica diretamente os tipos de alto risco. É mais sensível que o papanicolau e já é adotado como teste primário em algumas diretrizes internacionais.
Colposcopia: indicada quando o papanicolau ou o teste de HPV apresentam alterações. Permite visualizar o colo do útero com ampliação para orientar biopsia.
Mamografia: recomendada a partir dos 50 anos para rastreamento do câncer de mama (a partir dos 40 anos em alguns protocolos clínicos).
PSA e toque retal: para rastreamento do câncer de próstata a partir dos 50 anos, ou a partir dos 45 para homens negros ou com histórico familiar.
Perguntas frequentes sobre HPV
O HPV tem cura definitiva?
O HPV não tem cura medicamentosa no sentido de um antiviral que elimine o vírus. Em 90% dos casos, o sistema imunológico resolve sozinho em até 24 meses (OMS, 2024). O tratamento é direcionado às manifestações: verrugas, lesões pré-cancerosas ou cânceres associados. O acompanhamento médico regular é o caminho para evitar complicações.
Posso tomar a vacina HPV se já fui infectada?
Sim. A vacina ainda é benéfica para quem já teve contato com o HPV, pois protege contra os tipos que a pessoa ainda não contraiu. O ideal é vacinar antes do início da vida sexual, mas adultos jovens também se beneficiam. A avaliação médica individual é recomendada para decidir o esquema mais adequado.
O papanicolau detecta HPV diretamente?
Não. O papanicolau detecta alterações celulares causadas pelo HPV no colo do útero, não o vírus em si. Para identificar o vírus diretamente, existe o teste de DNA-HPV, mais sensível. O Ministério da Saúde recomenda o papanicolau como rastreamento primário e o teste de DNA-HPV em situações específicas ou como complemento diagnóstico.
O HPV pode causar infertilidade?
O HPV em si não causa infertilidade. O risco está no tratamento das lesões cervicais de alto grau, como a conização, que pode em casos raros afetar o comprimento do colo do útero e aumentar a chance de parto prematuro em gestações futuras. O acompanhamento por ginecologista especializado minimiza esses riscos significativamente.
Homens precisam fazer algum exame específico para HPV?
Não existe exame de rastreamento padronizado para HPV masculino equivalente ao papanicolau. A recomendação é exame clínico periódico com urologista ou dermatologista. Para homens que fazem sexo anal receptivo, a anuscopia para rastreamento de lesões anais está indicada. A vacina segue sendo a melhor proteção disponível.
Conclusão
O HPV é comum, prevenível e, na maioria das vezes, autolimitado. Entender o vírus é o primeiro passo para deixar o medo de lado e adotar as medidas certas: vacina em dia, exames preventivos regulares e acompanhamento médico.
Se você ainda não fez o papanicolau nos últimos três anos, ou tem um filho entre 9 e 14 anos que ainda não tomou a vacina, este é o momento de resolver. O SUS oferece tanto o exame quanto a vacina de forma totalmente gratuita.
E se você tem carteira assinada: desde abril de 2026, a lei garante até 3 dias por ano para esses exames sem desconto no salário. Use esse direito.
Consulte um médico para tirar dúvidas sobre HPV, vacina ou exames preventivos.
Revisado clinicamente por Rafael Leite Aguilar | CRM ES 18586
Fontes:
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Quem orienta
Rafael Leite Aguilar
Médico
CRM-ES 18586
Pós graduando em gestão de saúde pela FGV. Atua como Rotina Médica no Pronto Atendimento Conexa Saúde. CRM-ES 18586.
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