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Anemia: o que é, tipos, sintomas, causas e tratamento

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Cansaço fora do comum, palidez e fôlego curto são sinais que muita gente ignora ou atribui ao estresse. Mas podem ser sintomas de anemia, uma das condições de saúde mais comuns no mundo. Em 2021, a doença afetou 1,92 bilhão de pessoas, o equivalente a 24,3% da população global, segundo o Global Burden of Disease Study publicado no The Lancet Haematology.

A anemia não é uma doença única: é um sinal de que algo está errado no organismo. Identificar o tipo certo é o que define o tratamento correto, e tomar suplemento de ferro sem diagnóstico pode, em alguns casos, fazer mais mal do que bem.

O X da questão

Anemia é a queda nos níveis de hemoglobina (com ou sem redução do número de glóbulos vermelhos) no sangue, e afeta 1,92 bilhão de pessoas no mundo (GBD 2021, The Lancet). A causa mais comum é a deficiência de ferro, responsável por 66,2% dos casos. O diagnóstico é feito por hemograma simples e o tratamento depende do tipo: desde suplementação oral até mudanças alimentares e, em casos graves, transfusão.


O que é anemia?

A anemia é definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a concentração de hemoglobina abaixo de 13 g/dL em homens adultos, 12 g/dL em mulheres não grávidas e 11 g/dL em gestantes. A hemoglobina é a proteína dos glóbulos vermelhos responsável por transportar oxigênio do pulmão para todos os tecidos do corpo.

Quando os níveis estão baixos, os tecidos recebem menos oxigênio do que precisam. O resultado é a sensação de cansaço, fraqueza e fôlego curto que caracteriza o quadro.

A gravidade da anemia é classificada como leve, moderada ou grave, de acordo com o nível de hemoglobina, o que orienta a urgência da investigação e do tratamento.

Globalmente, a anemia causou 52 milhões de anos vividos com incapacidade em 2021, representando 5,7% de todos os anos vividos com incapacidade no mundo, mais do que doenças cardíacas ou diabetes, em termos de carga de incapacidade (GBD 2021, The Lancet Haematology).

Muita gente associa anemia automaticamente à falta de ferro, mas existem mais de 400 tipos descritos na literatura médica. Tratar anemia sem saber a causa é como tapar um buraco sem descobrir o que o causou. Um hemograma completo com avaliação do VCM (volume corpuscular médio) já orienta o médico para o diagnóstico correto, e é um exame de rotina disponível no SUS.


Quais são os principais tipos de anemia?

Cada tipo tem causa, tratamento e grau de gravidade diferentes. Conhecer as distinções é essencial para não tratar errado.

Anemia ferropriva (por falta de ferro) É a mais comum de todas. Ocorre quando os estoques de ferro estão insuficientes para a produção de hemoglobina. Responde por 66,2% de todos os casos de anemia no mundo (GBD 2021). Mais prevalente em crianças, gestantes e mulheres em idade fértil. Causas: baixa ingestão alimentar, má absorção intestinal ou perda crônica de sangue (menstruação abundante, úlcera, hemorroidas).

Anemia por deficiência de vitamina B12 (megaloblástica) A falta de B12 compromete a maturação dos glóbulos vermelhos, que ficam grandes e disfuncionais. Mais comum em vegetarianos estritos, pessoas com gastrite atrófica (incluindo portadores de H. pylori) e pacientes em uso crônico de metformina ou omeprazol. Pode causar sintomas neurológicos como formigamento e perda de memória, sintomas potencialmente irreversíveis se não tratada precocemente.

Anemia falciforme Doença genética que altera a forma dos glóbulos vermelhos, tornando-os rígidos e em forma de foice. É a doença genética mais prevalente no Brasil: o Ministério da Saúde estima que cerca de 3.500 crianças nascem por ano com a doença no país. Exige acompanhamento especializado e não tem cura, apenas manejo.

Anemia por doença crônica Acompanha condições inflamatórias como doenças autoimunes, insuficiência renal, câncer e infecções graves. O organismo retém ferro nos depósitos como resposta inflamatória, e ele não fica disponível para produzir hemoglobina. O tratamento é o da doença de base.

Talassemias Doenças genéticas que afetam a síntese das cadeias de hemoglobina, resultando em glóbulos vermelhos menores e mais frágeis. Mais prevalentes em populações mediterrâneas, do Oriente Médio e da Ásia. As formas graves exigem transfusões regulares; as formas leves (traço talassêmico) muitas vezes não precisam de tratamento.

Anemia hemolítica Os glóbulos vermelhos são destruídos mais rapidamente do que são produzidos. Pode ser hereditária (como a esferocitose) ou adquirida (por medicamentos, doenças autoimunes ou infecções).


Principais causas de Anemia no Mundo: Distribuição (%)

Global Burden of Disease Study 2021
Principais causas de Anemia no Mundo: Distribuição (%)

Fonte: GBD 2021, The Lancet Haematology (2023)

A deficiência de ferro é responsável por mais de dois terços de todos os casos de anemia no mundo.

Quais são os sintomas da anemia?

Os sintomas variam conforme a intensidade e a velocidade com que a anemia se instala. Anemias leves frequentemente não causam sintomas perceptíveis, e é por isso que tantos casos são descobertos apenas em exames de rotina.

Sintomas mais comuns:

  • Cansaço e fraqueza persistentes, mesmo sem esforço físico

  • Palidez na pele, nas conjuntivas (parte branca dos olhos) e nas unhas

  • Fôlego curto durante atividades simples

  • Palpitações ou sensação de coração acelerado

  • Dores de cabeça frequentes

  • Tontura ou sensação de desmaio ao levantar

  • Dificuldade de concentração e memória

  • Mãos e pés frios

  • Queda de cabelo e unhas frágeis (especialmente na anemia ferropriva)

  • Formigamento ou dormência nas extremidades (especialmente na deficiência de B12)

  • Dor no peito ou piora de doenças cardíacas em casos mais graves

Sinal de alerta: pica, a compulsão por comer terra, argila, gelo ou outros itens não alimentares, é um sintoma incomum, mas especificamente associado à anemia ferropriva severa. Merece atenção médica imediata.


A anemia por deficiência de B12 pode causar danos neurológicos permanentes se não tratada. E ao contrário da anemia ferropriva, em que os sintomas tendem a aparecer gradualmente, a deficiência de B12 pode instalar-se de forma mais insidiosa, com alterações de memória, mudanças de humor e formigamento que são facilmente confundidos com envelhecimento normal ou depressão.

Quais são as causas mais comuns da anemia?

Qualquer mecanismo que reduza a produção de glóbulos vermelhos, aumente sua destruição ou cause perda de sangue pode levar à anemia.

Por falta de nutrientes (mais comum):

  • Baixa ingestão de ferro: dietas com pouca carne vermelha, feijão e vegetais verde-escuros

  • Má absorção intestinal: doença celíaca, cirurgia bariátrica, uso de antiácidos crônicos

  • Baixa ingestão de B12: vegetarianos e veganos sem suplementação adequada

  • Perda menstrual intensa: principal causa de anemia em mulheres em idade fértil

Por perda de sangue:

  • Úlcera gástrica ou duodenal

  • Hemorroidas com sangramento crônico

  • Câncer colorretal (sangramentos ocultos)

  • Uso prolongado de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs)

Por doenças:

  • Doenças inflamatórias crônicas (artrite reumatoide, doenças inflamatórias intestinais)

  • Insuficiência renal (produção reduzida de eritropoetina)

  • Hipotireoidismo

  • Doenças genéticas (falciforme, talassemia)

Na gestação: A demanda por ferro e folato aumenta significativamente durante a gravidez. Sem suplementação, o risco de anemia é elevado e pode comprometer o desenvolvimento fetal.

Como é feito o diagnóstico da anemia?

O diagnóstico começa com um hemograma completo, um exame de sangue simples que mede a quantidade de hemoglobina, o número de glóbulos vermelhos e o VCM (volume corpuscular médio). O VCM é especialmente útil: orienta o médico sobre a provável causa da anemia.

VCM: Baixo (microcítica)
Tipo provável: Ferropriva
Causas comuns: Falta de ferro, talassemia

VCM: Normal (normocítica)
Tipo provável: Por doença crônica
Causas comuns: Inflamação, IRC, hipotireoidismo

VCM: Alto (macrocítica)
Tipo provável: Megaloblástica
Causas comuns: Deficiência de B12 ou folato

Após o hemograma, exames complementares confirmam a causa:

  • Ferritina e ferro sérico: avaliam os estoques de ferro

  • RDW (amplitude de distribuição dos eritrócitos): ajuda a diferenciar causas

  • Capacidade total de ligação do ferro (TIBC) e saturação de transferrina: podem ajudar no diagnóstico diferencial

  • Vitamina B12 e folato séricos: identificam deficiências nutricionais

  • Reticulócitos: indicam se a medula óssea está produzindo glóbulos vermelhos normalmente

  • Pesquisa de sangue oculto nas fezes: rastreia perda digestiva crônica

Nunca inicie suplementação de ferro ou B12 sem diagnóstico médico. Excesso de ferro pode ser tóxico e danificar fígado, coração e articulações, condição chamada hemocromatose.


Grupos Mais Vulneráveis à Anemia no Mundo

Prevalência estimada por grupo (GBD 2021 / OMS)
Grupos Mais Vulneráveis à Anemia no Mundo

Fonte: GBD 2021, The Lancet Haematology / OMS

Crianças menores de 5 anos e gestantes são os grupos com maior prevalência de anemia globalmente.

Qual é o tratamento para anemia?

O tratamento depende inteiramente da causa. Tratar todos os casos de anemia com ferro é um erro comum e pode mascarar diagnósticos importantes.

Anemia ferropriva:

  • Suplementação oral de sulfato ferroso ou outros sais de ferro (prescrita pelo médico)

  • Ingestão junto com vitamina C aumenta a absorção

  • Preferir uso em dias alternados pode melhorar absorção e reduzir efeitos colaterais

  • Evitar consumo simultâneo com café, chá, leite ou cálcio (reduzem a absorção)

  • Revisão alimentar: aumentar carnes vermelhas, feijão, lentilhas, espinafre, tofu

  • Duração: 3 a 6 meses após normalização da hemoglobina (para repor estoques)

  • Em casos graves ou má absorção: ferro endovenoso

Anemia por deficiência de B12:

  • Suplementação oral de cianocobalamina ou metilcobalamina

  • Em casos de má absorção (anemia perniciosa): injeções intramusculares mensais

  • Revisão alimentar: carnes, ovos, laticínios, alimentos enriquecidos

Anemia falciforme:

  • Sem cura, mas com manejo contínuo: hidroxiureia, analgesia, hidratação

  • Vacinação rigorosa (pacientes têm maior risco infeccioso)

  • Transplante de medula óssea em casos selecionados

  • Acompanhamento em centro especializado

Anemia por doença crônica:

  • Tratamento da doença de base

  • Em alguns casos (ex: IRC), eritropoetina sintética injetável

Regra geral: a hemoglobina se normaliza em 4 a 8 semanas após o início do tratamento correto, mas os estoques levam meses para se recuperar totalmente.


Anemia na gravidez e em crianças: por que merece atenção especial?

A gestação aumenta em até 50% a demanda por ferro e em 100% a por folato. Sem suplementação adequada, o risco de anemia cresce rapidamente, com consequências para mãe e bebê: parto prematuro, baixo peso ao nascer e comprometimento do desenvolvimento neurológico.

No Brasil, estudos regionais indicam que aproximadamente 4,8 milhões de pré-escolares são afetados pela anemia ferropriva, número que reflete desigualdades de acesso alimentar, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.

Em crianças, a anemia no período crítico de desenvolvimento (primeiros dois anos de vida) pode impactar permanentemente o desenvolvimento cognitivo, motor e comportamental, mesmo que tratada depois. Por isso, a triagem neonatal inclui pesquisa de anemia falciforme e o acompanhamento pediátrico regular deve incluir hemograma.


A suplementação de ferro é recomendada de forma preventiva no SUS para crianças de 6 a 24 meses e para gestantes, independentemente de diagnóstico de anemia, justamente porque a janela de dano neurológico é anterior ao aparecimento dos sintomas. Esse protocolo preventivo é frequentemente desconhecido pelas famílias.

Perguntas frequentes sobre anemia

Anemia tem cura?

Depende do tipo. A anemia ferropriva e por deficiência de B12 têm cura total com tratamento adequado. A anemia falciforme e as talassemias são doenças genéticas sem cura definitiva (exceto transplante de medula óssea em casos específicos), mas com manejo que garante qualidade de vida.

Posso tratar anemia só com alimentação?

Em casos leves, sim, com dieta rica em ferro e B12 e estratégias para melhorar a absorção. Mas em anemias moderadas a graves, a suplementação médica é necessária. O tratamento alimentar sozinho costuma ser insuficiente para repor os estoques em tempo hábil.

Café atrapalha a absorção de ferro?

Sim. Café, chá preto, chá-verde e leite contêm compostos que reduzem a absorção de ferro quando consumidos juntos. O ideal é tomar o suplemento de ferro separado desses alimentos por pelo menos uma hora. Vitamina C, ao contrário, aumenta significativamente a absorção.

Anemia causa queda de cabelo?

Sim, especialmente a anemia ferropriva. O folículo capilar é muito sensível à disponibilidade de ferro. A queda tende a reverter com o tratamento, mas pode levar alguns meses para normalizar completamente após a correção dos estoques.

Qual é a diferença entre anemia e pressão baixa?

São condições distintas. A anemia é a redução de hemoglobina no sangue. A pressão baixa (hipotensão) é a queda da pressão arterial. Ambas podem causar tontura e fraqueza, mas têm causas e tratamentos diferentes. É possível ter as duas ao mesmo tempo, mas não uma causa a outra diretamente.

Considerações finais

Anemia é comum, mas não é normal. Cansaço persistente, palidez e fôlego curto merecem investigação: um hemograma simples já orienta o diagnóstico. E com o tratamento certo, a maioria das anemias se resolve completamente em poucos meses.

Quer entender melhor seus sintomas ou já tem um diagnóstico de anemia e precisa de acompanhamento? Consulte um médico clínico geral ou hematologista pela Conexa Saúde sem precisar sair de casa, e receba orientação sobre exames, causas e tratamento com segurança.

Consulte um médico online e descubra a causa da sua anemia.

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Quem orienta

Juliana Seixas

Médica de Família e do Trabalho

CREMERJ 52981249

Especialista em Medicina de Família pela UERJ. Médica do Trabalho pela Funorte. Pós graduanda em gestão de saúde pela FGV.

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