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Hepatite B: o que é, sintomas, transmissão, tratamento e vacina

A hepatite B é silenciosa na maioria dos casos: sem sintomas, sem aviso, mas com consequências sérias se não tratada. No Brasil, foram registrados 302.351 casos entre 2000 e 2024, segundo o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais do Ministério da Saúde (julho de 2025). No mundo, 254 milhões de pessoas convivem com a doença, muitas sem saber que precisam de atenção médica.

A boa notícia: existe vacina gratuita no SUS, o diagnóstico é simples e, quando tratada, a hepatite B pode ser controlada. Entender como ela funciona é o primeiro passo para se proteger.

O X da questão

A hepatite B é uma infecção viral do fígado transmitida por contato com sangue, relações sexuais e de mãe para filho. Pode evoluir para formas aguda ou crônica. Não tem cura, mas tem tratamento eficaz com antivirais disponíveis no SUS. A vacina, gratuita para todas as idades, previne 95% das infecções. No Brasil, 302.351 casos foram notificados entre 2000 e 2024 (Ministério da Saúde, 2025).

O que é hepatite B?

A hepatite B é uma doença infecciosa causada pelo vírus HBV (Hepatitis B Virus) que ataca o fígado. Em 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que 254 milhões de pessoas vivem com a infecção em todo o mundo, com 1,1 milhão de mortes naquele ano, a maioria por cirrose e câncer hepático.

O HBV pertence à família Hepadnaviridae. Ele se instala nos hepatócitos (células do fígado) e os usa para se replicar. Com o tempo, essa inflamação pode lesar permanentemente o tecido hepático, comprometendo as funções vitais do órgão: filtrar o sangue, produzir proteínas e metabolizar medicamentos.

A evolução da doença depende da interação entre o vírus e o sistema imunológico do hospedeiro. Nem todas as pessoas infectadas evoluem com doença ativa ou dano hepático significativo.


Diferente do que muitos imaginam, a hepatite B também é classificada como uma IST (infecção sexualmente transmissível). Isso significa que qualquer pessoa sexualmente ativa está potencialmente exposta, independentemente de histórico de uso de drogas ou transfusões sanguíneas. Esse dado frequentemente surpreende, mas é essencial para uma prevenção eficaz.

O vírus pode causar dois tipos de infecção: aguda (dura até seis meses e frequentemente se resolve sozinha em adultos) ou crônica (persiste além desse período e requer acompanhamento médico contínuo).

Como se transmite a hepatite B?

O HBV está presente no sangue, sêmen, secreções vaginais e leite materno de pessoas infectadas. A transmissão acontece exclusivamente por contato direto com esses fluidos corporais.

Principais formas de transmissão:

  • Relação sexual desprotegida: via mais comum de transmissão entre adultos

  • Compartilhamento de agulhas e seringas: risco elevado em usuários de drogas injetáveis

  • Transmissão vertical: de mãe para filho durante o parto (principal rota em países de alta endemicidade)

  • Transfusão de sangue: rara no Brasil por conta da triagem obrigatória em bancos de sangue

  • Objetos perfurocortantes contaminados: tatuagens, piercings e procedimentos sem esterilização adequada

  • Exposição ocupacional: profissionais de saúde em contato com sangue ou fluidos corporais

O HBV não se transmite pelo ar, abraços, apertos de mão, talheres compartilhados, tosse ou espirro. O estigma em torno da doença frequentemente se baseia nesse equívoco.


O vírus da hepatite B sobrevive fora do organismo por até sete dias em superfícies secas à temperatura ambiente, durabilidade muito superior à do HIV, por exemplo. Isso torna a esterilização adequada de instrumentos médicos e odontológicos um ponto crítico de prevenção, especialmente em ambientes com recursos limitados.

Quais são os sintomas da hepatite B?

A hepatite B é chamada de "doença silenciosa" com razão: a maioria das infecções agudas não causa sintomas visíveis, ou apresenta sinais tão inespecíficos que são confundidos com gripe ou cansaço comum.

Quando os sintomas aparecem, surgem entre um e quatro meses após a exposição ao vírus. Os mais frequentes incluem:

  • Fadiga intensa e fraqueza persistente

  • Náuseas, vômitos e perda de apetite

  • Dor ou desconforto no lado direito do abdômen (região do fígado)

  • Urina escura (cor de chá-mate)

  • Fezes esbranquiçadas ou com coloração pálida

  • Icterícia: coloração amarelada da pele e do branco dos olhos

  • Febre baixa

  • Dores musculares e articulares

  • Prurido (coceira): pode ocorrer em fases colestáticas

  • Artralgia e rash: podem aparecer na fase inicial (fase prodrômica)

Na hepatite B crônica, os sintomas costumam ser ainda mais discretos, às vezes ausentes por anos, enquanto o vírus continua danificando o fígado silenciosamente. Por isso, o diagnóstico frequentemente acontece durante exames de rotina ou rastreamento de outras condições.

Hepatite B tem cura?

Não existe cura para a hepatite B crônica, mas a infecção pode ser controlada de forma eficaz com tratamento médico. A infecção aguda pode ser completamente eliminada pelo organismo em mais de 90% dos adultos. A distinção é importante: pessoas com hepatite B crônica podem viver décadas com qualidade de vida normal, desde que mantenham acompanhamento regular e, quando necessário, usem antivirais.

Cerca de 5 a 10% dos adultos que contraem a hepatite B aguda desenvolvem a forma crônica. O risco é muito maior na infância: em recém-nascidos infectados ao nascer, esse percentual sobe para 90%. Em crianças entre um e cinco anos, fica entre 25% e 50%.

Risco de Cronificação da Hepatite B por Faixa Etária

  Risco de Cronificação da Hepatite B por Faixa Etária

Fonte: Manual MSD / Organização Mundial da Saúde (OMS)


  • Quanto mais jovem no momento da infecção, maior o risco de a hepatite B tornar-se crônica. Em recém-nascidos, o risco chega a 90%.

    Esse dado tem uma implicação direta: proteger recém-nascidos é urgente. A dose de vacina aplicada nas primeiras 24 horas de vida reduz drasticamente o risco de cronificação em bebês nascidos de mães infectadas.


Como é feito o diagnóstico da hepatite B?

O diagnóstico é feito por exames de sangue que identificam marcadores específicos do vírus e a resposta do organismo a ele. Não há como saber se alguém tem hepatite B apenas pela aparência ou pelos sintomas.

Principais exames solicitados:

  • HBsAg (antígeno de superfície): confirma infecção ativa; resultado positivo indica presença do vírus

  • Anti-HBs: indica imunidade, seja por vacina ou por infecção anterior resolvida

  • Anti-HBc total: identifica contato prévio ou atual com o vírus

  • Anti-HBc IgM: marcador de infecção aguda recente

  • HBeAg e anti-HBe: avaliam a atividade replicativa (importantes para decidir o tratamento)

  • HBV-DNA (carga viral): mede a quantidade de vírus no sangue; essencial para monitorar a resposta ao tratamento

  • Avaliação de função hepática: ALT/TGP, AST/TGO

  • Avaliação de fibrose (elastografia hepática ou scores como FIB-4)

O Ministério da Saúde recomenda rastreamento de hepatite B para grupos com maior risco: pessoas com múltiplos parceiros sexuais, profissionais de saúde, usuários de drogas e gestantes. Desde 2024, a notificação compulsória de hepatite B em gestantes foi ampliada no Brasil.


O rastreamento rotineiro ainda é subutilizado no Brasil. Estudos indicam que a maioria das pessoas com hepatite B crônica desconhece o próprio diagnóstico, o que atrasa o tratamento, aumenta o risco de transmissão e eleva as chances de complicações graves. Pedir o exame numa consulta de rotina custa nada e pode mudar o prognóstico.


Qual é o tratamento para hepatite B?

A hepatite B aguda em adultos resolve-se sozinha na maioria dos casos, sem necessidade de antiviral específico. O manejo é de suporte: repouso, hidratação, alimentação leve e suspensão de álcool e medicamentos hepatotóxicos. Apenas casos graves, com insuficiência hepática aguda, requerem hospitalização.

Já a hepatite B crônica pode precisar de tratamento antiviral para reduzir a carga viral, prevenir progressão para cirrose e diminuir o risco de câncer hepático. O objetivo não é eliminar o vírus, mas mantê-lo suprimido a níveis indetectáveis, o que protege o fígado e reduz o risco de transmissão. O tratamento antiviral é indicado conforme a combinação de carga viral, elevação de ALT e grau de fibrose hepática.


Medicamentos disponíveis gratuitamente no SUS:

Tenofovir

Duração: Inibidor da transcriptase reversa

Duração: Longo prazo (indefinido)


Entecavir

Duração: Inibidor da polimerase viral

Duração: Longo prazo (indefinido)


Alfapeginterferona

Duração: Imunomodulador

Duração: 48 semanas (finita)


Segundo o Manual MSD, quase 20% das pessoas com hepatite B crônica não tratada desenvolvem cirrose ou câncer hepático ao longo da vida. Com tratamento e acompanhamento regulares, esse risco cai substancialmente. A escolha do esquema depende do perfil clínico, carga viral e presença de cirrose, sempre definida pelo médico.

A vacina contra hepatite B é eficaz?

Sim, e muito. A vacina contra hepatite B tem eficácia de 95% na prevenção da infecção e de suas complicações, incluindo cirrose e carcinoma hepatocelular. Ela é, historicamente, a primeira vacina capaz de prevenir um tipo de câncer, conforme destacado pela Agência Brasil em setembro de 2023.

No Brasil, a vacina está disponível gratuitamente no SUS para todas as pessoas que ainda não foram vacinadas ou não completaram o esquema.

Esquema vacinal recomendado:

  • Recém-nascidos: ao nascer (primeiras 24 horas) + aos 2, 4 e 6 meses (como parte da pentavalente)

  • Crianças e adolescentes: 3 doses (0, 1 e 6 meses)

  • Adultos não vacinados: 3 doses (0, 1 e 6 meses)

Profissionais de saúde devem confirmar soroconversão (anti-HBs igual ou superior a 10 mUI/mL) após o esquema completo. Pessoas não respondedoras (anti-HBs abaixo de 10 mUI/mL) devem repetir o esquema vacinal.

A dose ao nascimento é especialmente crítica: aplicada nas primeiras 24 horas de vida, ela bloqueia a transmissão vertical, a principal forma de infecção em regiões de alta prevalência.

Distribuição de Casos de Hepatite B no Brasil por Região

2000–2024. Total: 302.351 casos notificados

Fonte: Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais, Ministério da Saúde, julho 2025


Sudeste e Sul concentram 65% dos casos notificados, mas a região Norte apresenta as maiores taxas por habitante historicamente.

O Brasil adotou a vacina no calendário nacional em 1989 para grupos de risco, expandindo para crianças em 1998 e para adultos em 2010. Desde 2013, o país registra queda consistente nas taxas de detecção, reflexo direto da vacinação em massa ao longo de décadas.

Hepatite B crônica: riscos e acompanhamento

A hepatite B crônica não tratada é uma das principais causas de cirrose e carcinoma hepatocelular no mundo. O vírus HBV aumenta em mais de 100 vezes o risco de desenvolver câncer de fígado, e esse risco existe mesmo em pessoas sem cirrose estabelecida.

Principais complicações da hepatite B crônica sem tratamento:

  • Cirrose hepática: cicatrização progressiva com perda gradual de função

  • Carcinoma hepatocelular (CHC): tipo mais comum de câncer primário do fígado

  • Insuficiência hepática: estágio avançado, podendo requerer transplante

  • Coinfecção com hepatite D: quando presente, cirrose se desenvolve em até 70% dos casos sem tratamento

O acompanhamento regular inclui exames de sangue a cada seis meses (carga viral, transaminases, função hepática) e ultrassonografia do fígado para rastreamento de nódulos suspeitos. O rastreamento de câncer hepático deve ser feito a cada 6 meses com ultrassonografia com ou sem alfafetoproteína (AFP), conforme as diretrizes vigentes.


Pessoas com hepatite B crônica devem ser testadas para o vírus da hepatite D (delta), que só infecta quem já tem HBV. A coinfecção é especialmente prevalente na região Norte do Brasil e leva a formas muito mais graves da doença, informação frequentemente omitida em materiais informativos básicos sobre hepatite B.

Viver com hepatite B crônica exige atenção, mas não impede uma vida normal. Com tratamento adequado e sem álcool, a maioria das pessoas preserva a função hepática por décadas.

Perguntas frequentes sobre hepatite B

Hepatite B é contagiosa pelo beijo?

Não. A hepatite B não se transmite pelo beijo, abraço, espirro, tosse ou compartilhamento de talheres. O vírus está presente no sangue, sêmen, secreções vaginais e leite materno, e só se transmite por contato direto com esses fluidos.

Quem já teve hepatite B pode pegar de novo?

Em geral, não. Após a resolução da infecção aguda, o organismo desenvolve anticorpos (anti-HBs) que conferem imunidade duradoura. Pessoas imunossuprimidas ou com certas condições médicas podem ter resposta imune reduzida; o médico avalia caso a caso.

Preciso me vacinar se já tive hepatite B?

Não é necessário. Quem teve e resolveu a infecção aguda costuma ter imunidade natural, confirmada pelo anti-HBs positivo. O médico pode solicitar o exame antes de indicar vacinação para evitar doses desnecessárias.

Posso beber álcool com hepatite B crônica?

Não é recomendado. O álcool é diretamente hepatotóxico e potencializa os danos causados pelo vírus. Mesmo doses consideradas "moderadas" podem acelerar a progressão para cirrose em pessoas com hepatite B crônica.

Quanto tempo dura o tratamento da hepatite B?

Depende do esquema. A alfapeginterferona tem duração definida de 48 semanas. Já os antivirais orais (tenofovir e entecavir) geralmente são mantidos por tempo indeterminado para que o vírus permaneça suprimido. A decisão de interromper é sempre médica, baseada em critérios clínicos e laboratoriais específicos.

Considerações finais

A hepatite B é séria, mas prevenível e controlável. A vacina, gratuita, segura e com 95% de eficácia, é a principal arma de proteção. Para quem já convive com a forma crônica, o acompanhamento médico regular e o tratamento antiviral fazem toda a diferença na preservação da função hepática e na qualidade de vida.

Suspeita de hepatite B, quer fazer o rastreamento ou precisa renovar a carteira de vacinação? Você pode consultar um médico clínico geral ou hepatologista pela Conexa Saúde sem sair de casa, e receber orientação sobre exames, vacinação e tratamento de forma rápida e segura.

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Quem orienta

Juliana Seixas

Médica de Família e do Trabalho

CREMERJ 52981249

Especialista em Medicina de Família pela UERJ. Médica do Trabalho pela Funorte. Pós graduanda em gestão de saúde pela FGV.

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