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Urticária: o que é, tipos, sintomas, causas, diagnóstico e tratamentos

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Urticária é uma reação cutânea comum, caracterizada pelo surgimento súbito de placas avermelhadas (vergões) e coceira intensa, que podem durar horas e mudar de lugar no corpo. Ela é desencadeada por alergias, infecções ou estresse, e representa a resposta inflamatória do organismo a diferentes estímulos. Estima-se que cerca de 20% da população terá ao menos um episódio ao longo da vida, o que a torna uma das condições dermatológicas mais frequentes no mundo.

Principais sintomas da urticária

Os sintomas da urticária são resultado direto de um processo em que os vasos sanguíneos da pele se tornam mais permeáveis, deixando o líquido extravasar para o tecido dérmico. Esse mecanismo produz sinais bem característicos, mas que podem variar em intensidade de pessoa para pessoa. Reconhecê-los com precisão é o primeiro passo para buscar o tratamento certo.

  • Vergões ou urticas: são placas elevadas na pele, com bordas bem definidas e coloração rosada ou avermelhada. O centro da lesão pode aparecer mais claro ou esbranquiçado, porque o inchaço pressiona os vasos sanguíneos próximos à superfície.

  • Coceira intensa: é o sintoma mais incômodo e difícil de ignorar. A coceira na pele é causada pela ação da histamina e de outras substâncias químicas liberadas pelo organismo sobre os nervos da pele. Costuma piorar à noite ou após banhos quentes.

  • Lesões fugazes: cada vergão some em menos de 24 horas, sem deixar marcas ou manchas na pele. Mesmo assim, novas lesões podem continuar surgindo em outras partes do corpo. Essa característica ajuda a diferenciar a urticária de outras manchas na pele.

  • Angioedema: em 40% a 50% dos casos, a urticária vem acompanhada de inchaço em camadas mais profundas da pele - geralmente nos lábios, olhos, mãos ou pés. Diferente dos vergões, esse inchaço costuma doer e pode levar até 72 horas para desaparecer.

  • Dermografismo: em alguns pacientes, qualquer pressão ou atrito sobre a pele, como uma roupa apertada ou o próprio ato de coçar, provoca o aparecimento de marcas avermelhadas e inchadas no local do contato.

  • Sensação de queimação ou picadas: alguns tipos de urticária, como a colinérgica, causam uma sensação de formigamento ou "agulhadas" na pele antes mesmo de qualquer vergão aparecer visualmente.

Quando a urticária é grave e requer atenção imediata?

Na maioria dos casos, a urticária é desconfortável, mas não representa risco de vida. No entanto, ela pode evoluir para uma reação alérgica grave chamada anafilaxia, especialmente quando o inchaço atinge a garganta e compromete a passagem de ar. Fique atento a estes sinais de alerta:

Sintoma de Alerta

O que pode significar

O que fazer

Inchaço nos lábios, língua ou garganta

Risco de obstrução das vias aéreas

Emergência médica imediata

Dificuldade para respirar ou chiado

Broncoespasmo ou edema de laringe

Emergência médica imediata

Tontura ou desmaio

Queda brusca de pressão (choque anafilático)

Emergência médica imediata

Dificuldade para engolir ou falar

Edema em regiões críticas da garganta

Emergência médica imediata

Náuseas, vômitos ou dor abdominal intensa

Reação sistêmica com comprometimento do trato gastrointestinal

Avaliação em pronto-socorro

Qualquer um desses sintomas junto com os vergões na pele indica que a reação foi além da derme e o uso de adrenalina injetável pode ser necessário com urgência.

Principais causas da urticária

A urticária é o resultado final de vários gatilhos que ativam um tipo específico de célula do sistema imunológico: os mastócitos. Pense nelas como "sensores de alarme" espalhados pela pele, posicionados estrategicamente perto dos vasos sanguíneos e das terminações nervosas. 

Quando algo as aciona, elas liberam uma série de substâncias químicas, como a histamina, que provocam os sintomas clássicos: os vasos se dilatam, a pele fica avermelhada, o inchaço aparece e a coceira começa.

Esse “alarme” pode ser acionado por três fatores: 

Imunológico

O primeiro é o imunológico, que funciona como uma alergia tradicional. Nesse caso, o organismo identifica algo como ameaça (um alimento, o veneno de um inseto, um medicamento) e produz anticorpos chamados imunoglobulina E (IgE) para combatê-lo. Esses anticorpos se ligam aos mastócitos e, na próxima vez que aquele gatilho aparecer, disparam a reação.

Não-imunológico

No segundo, não há alergia envolvida. Estímulos físicos como frio, calor, pressão ou atrito na pele conseguem ativar os mastócitos diretamente, sem passar pelo sistema de anticorpos. É o que explica, por exemplo, por que algumas pessoas desenvolvem vergões só de coçar levemente a pele.

Autoimunidade

Há ainda um terceiro mecanismo, cada vez mais estudado: a autoimunidade. Em alguns pacientes, o próprio organismo produz anticorpos que atacam seus próprios mastócitos, provocando crises sem nenhum gatilho externo aparente. Esse padrão é especialmente comum na urticária crônica espontânea.

Causas físicas da urticária

As urticárias físicas são disparadas por estímulos que vêm de fora, do ambiente. Elas representam boa parte dos casos que duram muito tempo. Entender esses gatilhos ajuda você a descobrir qual o "limite" que seu corpo suporta.

  • Dermografismo: é o tipo mais comum. O simples ato de coçar ou apertar a pele faz o corpo liberar histamina (a substância que causa o inchaço) naquele local. Surgem vergões que desenham exatamente o caminho da pressão. É como se a pele "escrevesse" em resposta ao toque.

  • Frio intenso: o contato com ar gelado, água ou superfícies frias causa a reação. Em casos raros e graves, mergulhar em águas geladas pode espalhar a reação pelo corpo todo, o que exige cuidado imediato.

  • Calor e sol: a urticária pelo calor surge onde a pele esquenta direto. Já a solar acontece por causa da luz do sol (raios UV) e pode aparecer até em dias nublados.

  • Urticária colinérgica: muitos chamam de "alergia ao calor", mas o gatilho real é o aumento da temperatura dentro do corpo. Exercícios, banhos quentes, febre ou comida apimentada "aquecem" o organismo e fazem surgir pequenas pintinhas vermelhas espalhadas.

  • Pressão tardia: diferente do dermografismo, esta demora horas para aparecer. Surge depois de uma pressão demorada, como usar uma mochila pesada ou ficar muito tempo de pé. O inchaço costuma ser mais profundo e dolorido.

Se os seus sintomas aparecem logo após atividades físicas ou banhos quentes, vale mencionar isso ao médico. Pode ser um sinal importante para o diagnóstico.

Urticária por infecções e doenças

Nem toda urticária é alergia. Em crianças, a causa mais frequente de urticária aguda são as infecções virais das vias aéreas superiores, como gripe e resfriado. Em adultos com quadros crônicos, o foco de investigação frequentemente recai sobre infecções persistentes e condições sistêmicas.

  • Helicobacter pylori (H. pylori): embora exista uma associação descrita com a urticária crônica espontânea, essa relação ainda é considerada controversa e sem um nexo causal bem estabelecido. De acordo com as diretrizes atuais, a investigação ou o tratamento do H. pylori não são recomendações rotineiras apenas para casos de urticária.

  • Doenças autoimunes e da tireoide: pacientes com urticária crônica apresentam maior incidência de tireoidite de Hashimoto e outras condições autoimunes. Às vezes, quando o corpo produz anticorpos que atacam a própria tireoide ou outras partes do organismo, a urticária pode ser um reflexo desse conflito interno.

Causas emocionais da urticária

A relação entre mente e pele é mais profunda do que parece. O sistema nervoso e a pele têm a mesma origem embrionária, e se comunicam continuamente por meio de neuropeptídeos e hormônios - uma via que a medicina reconhece como o eixo psico-neuro-imuno-endócrino.

Em situações de estresse intenso ou ansiedade, o organismo libera cortisol, adrenalina e uma substância chamada Substância P. Essa última tem a capacidade de ativar diretamente os mastócitos da pele, liberando histamina e provocando os vergões. 

É por isso que a "urticária nervosa" não é invenção: trata-se de uma resposta biológica real, com mecanismo comprovado. Condições como a dermatite nervosa compartilham parte desse mesmo princípio.

É raro, porém, o estresse ser a causa única da urticária, mas funciona como um potente amplificador de gatilhos que já existem. Por isso, controlar o estado emocional é parte integrante do tratamento, não apenas um conselho genérico.

Tipos de urticária

A classificação da urticária leva em conta principalmente sua duração e o mecanismo que a desencadeia. 

Essa distinção é essencial: enquanto a urticária aguda geralmente exige apenas alívio sintomático, a crônica pede investigação mais aprofundada e tratamento de longo prazo. 

Em 2024, analistas estimaram cerca de 4,7 milhões de casos prevalentes de urticária crônica em mercados globais de referência, sendo 69% classificados como espontânea e 31% como induzível.

Tipo

Duração

O que acontece

Aguda

Menos de 6 semanas

Costuma ser passageira. Causada por algo que você comeu, um remédio novo ou uma virose.

Crônica Espontânea

Mais de 6 semanas

As manchas surgem "do nada", sem um gatilho visível, na maioria dos dias. É mais comum em mulheres.

Crônica Induzível

Mais de 6 semanas

Precisa de um estímulo físico para aparecer (como frio, calor, sol ou pressão).

Vasculite

Variável

As manchas duram mais de 24 horas no mesmo lugar, doem e deixam uma marca roxa quando somem.

Como é feito o diagnóstico de urticária?

O diagnóstico da urticária é essencialmente clínico. Ou seja, é baseado na história do paciente e na observação das lesões, sem exigir exames laboratoriais na maioria dos casos agudos. 

Durante a consulta, o médico faz perguntas detalhadas sobre alimentação, rotina, uso de novos medicamentos (especialmente anti-inflamatórios e aspirina), episódios recentes de febre ou situações de estresse.

Para quadros que persistem além de seis semanas, existem ferramentas validadas internacionalmente que ajudam a medir a gravidade da doença e monitorar a resposta ao tratamento, presentes no Guia Prático da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia para o Diagnóstico e Tratamento da Urticária:

  • UAS7 (Urticaria Activity Score): o paciente avalia, por 7 dias consecutivos, o número de vergões e a intensidade da coceira, atribuindo notas de 0 a 3 para cada item. A soma semanal varia de 0 a 42, e um escore igual ou superior a 16 indica doença de moderada a grave intensidade.

  • UCT (Urticaria Control Test): composto por 4 perguntas sobre o impacto na qualidade de vida nas últimas 4 semanas. Um resultado abaixo de 12 pontos identifica pacientes com a doença mal controlada.

Exames que podem ser solicitados para o diagnóstico de urticária

É importante salientar ainda que nem todo mundo precisa de exame de sangue para tratar urticária. Eles só entram em cena quando o quadro não melhora ou parece sinal de algo mais profundo.

Dois exames se destacam quando falamos sobre o descobrimento de urticária: o hemograma apresentando sinais de inflamação ou infecções "escondidas" e a biópsia, onde tira-se um pedacinho minúsculo da mancha para analisar no microscópio (só em casos muito específicos).

Urticária tem cura?

Depende do tipo. Na urticária aguda, a cura é a regra: uma vez removido o gatilho, seja um alimento, medicamento ou infecção, os sintomas desaparecem completamente e não retornam.

Na urticária crônica, o objetivo é a remissão e o controle total dos sintomas. Embora nem sempre seja possível eliminar definitivamente a tendência do organismo de reagir, os protocolos atuais da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) permitem que o paciente permaneça assintomático por longos períodos, mantendo qualidade de vida plena. 

E há um dado importante, a urticária crônica tende a ser autolimitada: 50% dos pacientes apresenta melhora em 1 ano até 80% em 5 anos.

Os avanços da terapia biológica nos últimos anos transformaram o prognóstico de casos antes considerados "intratáveis": o caminho é o acompanhamento médico.

Tratamento para urticária

O tratamento moderno da urticária segue uma estratégia em degraus: começa pelas intervenções mais simples e seguras, avançando para opções mais potentes conforme a necessidade. 

O objetivo não é apenas aliviar a coceira em um episódio isolado, mas prevenir o aparecimento de novas lesões e restaurar a qualidade de vida - especialmente o sono, frequentemente prejudicado pelas crises noturnas.

A abordagem depende do tipo, da gravidade e da causa identificada, e deve ser sempre orientada por um médico.

Medicamentos anti-histamínicos

Os anti-histamínicos H1 de segunda geração são a base do tratamento. Diferente das opções antigas, esses medicamentos modernos não causam sonolência na maioria dos pacientes e não interferem na capacidade de dirigir ou trabalhar.

  • Como funcionam: bloqueiam os receptores de histamina nas células da pele e dos vasos, impedindo a vasodilatação e o sinal de coceira.

  • Escalonamento de dose (up-dosing): quando a dose padrão não é suficiente, as diretrizes internacionais permitem ao médico aumentar a dosagem em até quatro vezes. Essa prática é segura para os anti-histamínicos de segunda geração e é a conduta padrão antes de considerar medicamentos mais potentes.

  • Uso contínuo: o tratamento deve ser regular, não apenas "quando a placa aparece". Manter o bloqueio constante do receptor é mais eficaz do que tratar de forma pontual.

Outras opções de tratamento

Para pacientes que não atingem controle adequado mesmo com doses elevadas de anti-histamínicos, existem alternativas que atuam em diferentes pontos da cascata inflamatória:

  • Omalizumabe: anticorpo monoclonal injetável que se liga à IgE circulante, impedindo que ela ative os mastócitos. É considerado o padrão-ouro para urticária crônica espontânea resistente ao tratamento, com resposta rápida e segurança comprovada.

  • Ciclosporina: imunossupressor utilizado em casos mais graves e refratários. Atua inibindo a ativação de células do sistema imunológico responsáveis pela liberação de mediadores inflamatórios.

  • Corticosteroides sistêmicos: indicados apenas para resgate em crises agudas muito intensas, por curtos períodos (máximo de 7 a 10 dias). O uso prolongado é fortemente contraindicado devido ao risco de efeitos colaterais graves.

Dicas para alívio de urticária em casa

Além dos medicamentos, algumas medidas simples de cuidado com a pele e com o ambiente podem reduzir o desconforto durante um surto — e, em alguns casos, diminuir a necessidade de doses extras de remédio.

  • Compressas frias: o frio promove vasoconstrição, reduz o inchaço e "amortece" as terminações nervosas que causam coceira. Use panos limpos úmidos ou bolsas de gelo protegidas por toalha por 10 a 15 minutos na região afetada.

  • Banho morno ou frio: água quente é um liberador potente de histamina. Prefira temperaturas mais baixas e evite buchas ou esponjas, que irritam a pele mecanicamente e podem piorar os vergões.

  • Sabonetes específicos: opte por produtos sem fragrância, com pH neutro ou do tipo syndet (detergente sintético), que preservam a barreira natural da pele e evitam o ressecamento,  que, por si só, intensifica a coceira.

  • Roupas leves: tecidos de 100% algodão são os mais recomendados. Evite lã e sintéticos, que retêm calor e suor.

  • Unhas curtas: manter as unhas aparadas reduz o risco de lesionar a pele ao coçar, além de diminuir a chance de infecções secundárias.

Como prevenir crises de urticária?

Prevenir recorrências é tão importante quanto tratar a crise ativa. A estratégia eficaz combina autoconhecimento do próprio corpo com algumas mudanças práticas na rotina.

  • Mantenha um diário de sintomas: anote tudo o que comeu, medicamentos tomados, nível de estresse e atividades realizadas nas 24 horas antes de cada crise. Esse histórico é fundamental para que o médico identifique padrões e confirme a urticária induzível.

  • Cuidado com anti-inflamatórios: medicamentos como aspirina, ibuprofeno e diclofenaco são gatilhos conhecidos que podem exacerbar crises de urticária crônica em até 30% dos pacientes. Na dúvida, prefira analgésicos simples sob orientação médica.

  • Proteção solar: se você tem urticária solar, o uso rigoroso de protetor de amplo espectro e roupas com fator de proteção UV é indispensável mesmo em dias nublados.

  • Gerencie o estresse: práticas como meditação, ioga e psicoterapia ajudam a regular o eixo entre sistema nervoso e pele, aumentando o limiar de tolerância do organismo aos gatilhos. Cuidar da saúde emocional é parte legítima do tratamento.

O que não se deve comer quando se tem urticária?

A urticária crônica raramente é causada por uma alergia alimentar clássica. No entanto, em alguns pacientes, certos alimentos podem facilitar a liberação de histamina e precipitar crises.

Embora não seja uma recomendação universal das diretrizes atuais, uma dieta com baixo teor de histamina pode auxiliar alguns pacientes no controle dos sintomas.

Alimentos que podem atuar como gatilhos em casos específicos:

  • Fermentados: vinhos, cervejas, queijos envelhecidos, vinagre e conservas.

  • Proteínas processadas: embutidos (presunto, salame), peixes enlatados e frutos do mar.

  • Vegetais e frutas: tomate, espinafre, berinjela, morango, kiwi, abacaxi e cítricos em excesso.

  • Outros: chocolate, clara de ovo crua, nozes e alimentos com excesso de corantes ou conservantes.

Para substituir, prefira alimentos frescos: carnes preparadas na hora, arroz, batata, maçã, pera e legumes como cenoura e abobrinha, que costumam ser bem tolerados.

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Se você está sentindo vergões, alergia na pele persistente ou dor no corpo associada a reações cutâneas, não espere os sintomas piorarem. Busque orientação médica.

Quem orienta

Juliana Seixas

Médica de Família e do Trabalho

CREMERJ 52981249

Especialista em Medicina de Família pela UERJ. Médica do Trabalho pela Funorte. Pós graduanda em gestão de saúde pela FGV.

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