A dor no joelho pode ter mais de 15 causas diferentes, desde uma sobrecarga simples até desgaste da cartilagem, rompimento de menisco ou problemas como gota e artrite. Segundo um levantamento do Instituto Ferrer, com base em dados de estudos populacionais, esse desconforto atinge cerca de 69% dos brasileiros acima de 18 anos, com maior frequência em mulheres.
Muitos casos melhoram com tratamento sem cirurgia, como fisioterapia e ajuste das atividades. Medicamentos e procedimentos dependem da causa e devem ser orientados por profissional.
Dor no joelho: o que pode ser?
Dor no joelho é qualquer incômodo sentido nessa articulação. Não é uma doença, mas um sinal de que alguma parte do joelho pode estar sobrecarregada, inflamada ou machucada. Na medicina, o nome técnico é gonalgia, mas o que importa é entender o que está por trás dela.
Principais causas de dor no joelho
1. Artrose (desgaste da cartilagem)
A artrose envolve desgaste da cartilagem. Pode causar dor ao movimentar, rigidez e dificuldade nas atividades diárias.
O que causa: Idade, excesso de peso e lesões anteriores estão entre os fatores associados.
Dados do Ministério da Saúde citados pela Radioagência Nacional estimam que a artrose atinja cerca de 15 milhões de brasileiros, sendo o joelho a articulação mais afetada. A mesma reportagem traz dados da OMS mostrando que cerca de 80% das pessoas acima de 65 anos apresentam algum grau de desgaste articular.
Como tratar: o tratamento começa sem cirurgia. A Diretriz Brasileira para Tratamento da Osteoartrite de Joelho (Conitec/Ministério da Saúde, Relatório nº 340, 2018) recomenda como base exercícios físicos supervisionados e controle de peso.
Medicamentos, infiltrações e cirurgia podem ser considerados conforme sintomas, limitações e resposta ao tratamento, após avaliação médica.
2. Lesão de menisco
Os meniscos amortecem o impacto entre fêmur e tíbia. Uma lesão pode causar dor, inchaço e travamento.
O que causa: Torções com o pé apoiado e desgaste ao longo do tempo são causas comuns.
Como tratar: Lesões estáveis podem melhorar com fisioterapia. Travamentos e limitações persistentes exigem avaliação sobre outras opções de tratamento.
3. Lesão de ligamento (cruzado anterior e colaterais)
Os ligamentos estabilizam o joelho. A lesão do cruzado anterior pode provocar estalo, dor e sensação de instabilidade.
O inchaço pode surgir nas primeiras horas. Os ligamentos colaterais também podem ser lesionados.
O que causa: Mudanças bruscas de direção, saltos e impactos laterais são mecanismos frequentes.
Como tratar: O tratamento depende do ligamento, da gravidade e das necessidades da pessoa. Pode incluir reabilitação, joelheira e, em alguns casos, cirurgia.
4. Tendinite no joelho
A sobrecarga dos tendões pode causar dor localizada, especialmente ao correr, saltar ou subir escadas.
O que causa: esforço repetitivo, principalmente em esportes de salto (vôlei, basquete) e corrida. Aumento repentino do volume de treino, treinar em superfície muito dura, usar calçado sem amortecimento adequado ou ter músculos da coxa encurtados também contribuem para a tendinite no joelho. Trabalhadores que ficam muito tempo em pé ou sobem muitas escadas durante o dia podem desenvolver tendinite mesmo sem praticar esporte.
Como tratar: Reduzir temporariamente a carga e fazer fisioterapia são medidas comuns. O retorno ao exercício deve ser gradual e orientado.
5. Condromalácia patelar (desgaste da cartilagem da rótula)
Alterações na cartilagem da rótula podem causar dor na frente do joelho, principalmente ao subir escadas ou agachar.
O que causa: fraqueza dos músculos da coxa (especialmente o quadríceps), desalinhamento da rótula (ela não desliza reto sobre o osso da coxa), pisada errada, excesso de atividade de impacto, sobrepeso e até ficar sentado com o joelho dobrado por longos períodos no trabalho. É mais frequente em mulheres jovens.
Como tratar: A fisioterapia, com fortalecimento e ajuste das atividades, é central no tratamento. Cirurgia não é necessária na maioria dos casos.
6. Bursite no joelho
Bursite é a inflamação das bolsas que reduzem o atrito ao redor do joelho. Pode causar dor e inchaço localizado.
O que causa: Apoio prolongado sobre os joelhos, atrito e trauma podem desencadear o problema.
Como tratar: Evitar a pressão sobre a região e tratar a inflamação pode ajudar. Calor intenso, vermelhidão ou febre exigem avaliação para descartar infecção.
7. Artrite reumatoide no joelho
A artrite reumatoide é uma doença autoimune que provoca inflamação nas articulações. Pode afetar os joelhos e causar rigidez e inchaço.
O que causa: Predisposição genética e fatores ambientais participam do desenvolvimento da doença.
Como tratar: O acompanhamento com reumatologista permite controlar a inflamação e reduzir danos articulares com tratamento específico.
8. Gota
A gota ocorre pelo depósito de cristais de ácido úrico e pode causar dor súbita e intensa, calor e inchaço.
O que causa: Ácido úrico elevado pode estar associado a fatores genéticos, alimentação e condições de saúde.
Como tratar: O tratamento da crise e o controle do ácido úrico exigem orientação médica. Não se automedique.
9. Dor do corredor (síndrome da banda iliotibial)
A síndrome da banda iliotibial costuma causar dor na lateral externa do joelho, associada à repetição de movimentos.
O que causa: Corrida, ciclismo e aumento inadequado da carga de treino podem contribuir.
Como tratar: O tratamento pode envolver redução da carga, fisioterapia e fortalecimento, com retorno gradual à atividade.
10. Sobrecarga e esforço repetitivo (sem lesão visível em exames)
Pode haver dor mesmo sem alterações claras nos exames. A avaliação deve considerar carga de treino, força e movimentos.
O que causa: fraqueza muscular, aumento abrupto de esforço e alterações nos movimentos podem sobrecarregar o joelho. Como tratar: ajustar a carga e fortalecer a musculatura com orientação. Dor persistente merece avaliação mesmo sem lesão visível nos exames.
Dor no joelho por região: o que cada local indica
A localização orienta a avaliação, mas não confirma a causa:
Dor na frente do joelho
Quase sempre ligada a problemas na rótula: condromalácia, tendinite do tendão que fica logo abaixo da rótula ou síndrome da rótula. Piora ao subir e descer escadas, agachar ou ficar sentado por muito tempo.
Dor na lateral externa do joelho
Causa mais frequente: a já mencionada “dor do corredor” (síndrome da banda iliotibial). Também pode indicar lesão do menisco lateral ou do ligamento da lateral.
Dor atrás do joelho
Pode ser um cisto de Baker (um caroço cheio de líquido que se forma na parte de trás), lesão na parte posterior do menisco ou, mais raramente, um problema vascular (como trombose), que precisa de atendimento urgente.
Dor na parte de dentro do joelho
Frequentemente ligada à lesão do menisco interno, do ligamento da parte de dentro, artrose localizada ou inflamação dos tendões da “pata de ganso” (três tendões que se inserem juntos na parte interna da canela, logo abaixo do joelho).
Dor no joelho conforme o movimento: agachar, correr, subir escadas e repouso
Dor no joelho ao agachar: o agachamento aumenta a pressão sobre a rótula e sobre os meniscos. Se a dor for na frente do joelho, as maiores suspeitas são condromalácia ou síndrome da rótula. Se for uma dor mais “profunda”, pode ser no menisco.
Dor no joelho ao correr: dor do lado de fora geralmente aponta para a síndrome da banda iliotibial. Na frente, pode ser tendinite do tendão abaixo da rótula. Dor que vai piorando a cada treino pode ser fratura por estresse, especialmente se houver aumento repentino de quilometragem.
Dor no joelho ao subir ou descer escadas: a escada multiplica a carga sobre a rótula. Esse é um dos primeiros sintomas de condromalácia e também de artrose no começo.
Dor no joelho em repouso: quando dói mesmo parado, o sinal é mais sério. Pode indicar artrose avançada, artrite inflamatória (reumatoide ou gota) ou, em casos raros, infecção dentro da articulação. O Protocolo Clínico de Dor Crônica do Ministério da Saúde (Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1, de 22 de agosto de 2024) classifica dores que duram mais de três meses como dor crônica, com indicação de acompanhamento profissional.
Quais são os fatores de risco da dor no joelho?
Excesso de peso: cada quilo a mais representa de duas a quatro vezes mais carga sobre o joelho durante a caminhada. A artrose é mais comum em quem tem IMC acima de 30, conforme revisão publicada no Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences.
Idade: o desgaste natural da cartilagem aumenta a partir dos 40-50 anos. Depois dos 60, a artrose vira a principal causa de dor no joelho.
Sexo feminino: mulheres têm mais dor no joelho e mais artrose. Isso tem a ver com diferenças na estrutura óssea e com as mudanças hormonais da menopausa, que aceleram a perda de cartilagem.
Sedentarismo: músculo fraco protege menos a articulação. A fraqueza do músculo da frente da coxa (quadríceps) é um dos fatores de risco mais documentados para artrose de joelho.
Lesões anteriores: quem já torceu o joelho, rompeu ligamento ou machucou menisco tem mais chance de desenvolver artrose no futuro.
Trabalho repetitivo: atletas de corrida e salto, assim como trabalhadores que ficam muito tempo em pé, agachados ou ajoelhados, expõem o joelho a lesões por esforço repetitivo.
Quando a dor no joelho é preocupante?
A maioria das dores no joelho melhora em poucos dias com repouso e gelo. Mas alguns sinais pedem avaliação médica:
Marque uma consulta com ortopedista se: a dor não melhorar em duas semanas, mesmo com repouso; o joelho ficar inchado sem motivo aparente; você sentir o joelho travando (não conseguir dobrar ou esticar por completo); sentir que o joelho “foge” ou está frouxo; a dor aparecer depois de uma pancada e você não conseguir pisar; a pele sobre o joelho ficar vermelha e quente.
Vá ao pronto-socorro se: a dor for muito forte e incapacitante depois de uma queda ou batida; o joelho parecer torto ou deformado; aparecer febre junto com dor e inchaço (pode ser infecção dentro da articulação, que é uma urgência médica e requer tratamento rápido).
Como o médico descobre a causa da dor no joelho?
O médico investiga o início da dor, os fatores de piora e melhora e examina mobilidade, estabilidade e áreas dolorosas.
Conforme a suspeita, exames complementares podem ser pedidos:
Raio-X: é quase sempre o primeiro exame. Mostra os ossos, identifica fraturas, sinais de desgaste (como redução do espaço entre os ossos e formação de “bicos” ósseos) e calcificações.
Ressonância magnética: é o exame que mais detalha as partes “moles” do joelho, meniscos, ligamentos, cartilagem e tendões. Costuma ser pedido quando se suspeita de rompimento de ligamento, lesão de menisco ou problema na cartilagem.
Ultrassom: útil para avaliar tendões, bursas e presença de líquido dentro do joelho. Tem a vantagem de ser feito na hora e sem radiação.
Exames de sangue: quando a suspeita é de doença inflamatória (artrite reumatoide, gota), o médico pode pedir exames para medir marcadores de inflamação e ácido úrico. Em alguns casos, colhe-se o líquido de dentro do joelho com uma agulha para análise.
Como tratar a dor no joelho?
O tratamento depende da causa, da gravidade e do impacto na rotina. Em geral, começa com medidas conservadoras.
Tratamento sem cirurgia (conservador)
Gelo e repouso relativo: aplicar gelo enrolado em um pano por 15 a 20 minutos, de 2 a 3 vezes ao dia, ajuda a reduzir dor e inchaço na fase aguda. Repouso não significa ficar parado: manter atividades leves evita a perda de força muscular.
Medicamentos: anti-inflamatórios em pomada (tópicos) são a primeira opção recomendada pela Diretriz Brasileira para Tratamento da Osteoartrite de Joelho (Conitec/Ministério da Saúde, 2018), por terem menos efeitos colaterais que os comprimidos. Além disso, anti-inflamatórios por via oral podem ser usados por tempo limitado. Qualquer medicamento só pode ser usado após orientação médica.
Fisioterapia: é um dos tratamentos com mais evidência científica. Exercícios para fortalecer o quadríceps (músculo da frente da coxa), os músculos de trás da coxa e os glúteos, combinados com alongamentos e treino de equilíbrio, reduzem a dor e melhoram o funcionamento do joelho. Uma revisão publicada na Revista Nursing (2025) reforça que exercícios supervisionados devem ser a base do tratamento antes de qualquer medicamento.
Perda de peso: em quem está acima do peso, emagrecer tira carga do joelho e freia o avanço da artrose. Estudos mostram que reduzir 5% do peso corporal já traz melhora perceptível na dor.





