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Derrame pleural: o que é, causas, sintomas, diagnóstico e tratamento

Médico com estetoscópio
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Falta de ar que piora ao deitar, dor no peito que aumenta ao respirar fundo e tosse seca persistente: esses sintomas podem indicar derrame pleural, o acúmulo de líquido no espaço entre o pulmão e a parede do tórax. A condição é mais comum do que parece: nos Estados Unidos, estima-se que 1,5 milhão de pacientes são afetados por ano, e no Brasil ela complica entre 20% e 30% das internações por pneumonia grave.

A boa notícia: quando identificado a tempo, o derrame pleural tem tratamento eficaz. Entender o que está causando o acúmulo de líquido é o primeiro e mais importante passo.

Resumo (TL;DR)

Derrame pleural é o acúmulo anormal de líquido na cavidade pleural, o espaço que envolve os pulmões. A insuficiência cardíaca é a causa mais comum, responsável por cerca de 50% dos casos. O diagnóstico é feito por radiografia de tórax ou ultrassonografia. O tratamento varia de medicamentos até drenagem, dependendo da causa e do volume de líquido acumulado.

O que é derrame pleural?

O derrame pleural não é uma doença em si: é um sinal de que algo está errado em outro órgão ou sistema. Os pulmões são revestidos por duas membranas chamadas pleuras: a pleura visceral (que cobre o pulmão) e a pleura parietal (que reveste a parede torácica). Entre elas existe um espaço virtual com uma pequena quantidade de líquido, normalmente entre 5 e 15 mL, que funciona como lubrificante durante os movimentos respiratórios.

Quando a produção desse líquido supera a capacidade de reabsorção, ele se acumula e começa a comprimir o tecido pulmonar. O resultado é a dificuldade para respirar. A velocidade de acúmulo do líquido influencia os sintomas: acúmulos rápidos tendem a causar mais falta de ar mesmo com menor volume.

O espaço pleural normalmente não deveria ter líquido em quantidade perceptível. Qualquer acúmulo detectável no exame de imagem já indica desequilíbrio entre produção e reabsorção, o que pode sinalizar desde insuficiência cardíaca até câncer com metástase pleural. O tamanho do derrame não define a gravidade da causa subjacente: derrames pequenos por tuberculose podem ser mais preocupantes do que derrames grandes por insuficiência cardíaca tratável.

Quais são as principais causas do derrame pleural?

A insuficiência cardíaca responde por cerca de 50% de todos os casos de derrame pleural nos países de renda alta (StatPearls, NIH, 2024). Quando o coração não bombeia o sangue com eficiência, a pressão nas veias aumenta e o líquido vaza para os espaços corporais, incluindo a cavidade pleural.

As demais causas dividem-se entre derrames transudativos (causados por alterações sistêmicas de pressão ou proteína) e derrames exsudativos (causados por inflamação, infecção ou tumor local).

Causas transudativas mais comuns:

  • Insuficiência cardíaca congestiva (cerca de 50% dos casos)

  • Cirrose hepática com hipertensão portal

  • Síndrome nefrótica (perda de proteínas pelo rim)

  • Hipoalbuminemia grave

Causas exsudativas mais comuns:

  • Pneumonia bacteriana (parapneumônico): 20 a 30% dos internados por pneumonia grave

  • Tuberculose: causa importante no Brasil, especialmente em pacientes imunossuprimidos

  • Neoplasias (câncer de pulmão, mama, linfoma), derrame maligno

  • Embolia pulmonar

  • Doenças autoimunes (lúpus, artrite reumatoide)

  • Pancreatite aguda

O derrame parapneumônico complicado e o empiema são formas graves que exigem drenagem urgente.

A insuficiência cardíaca é a causa mais comum globalmente. No Brasil, a tuberculose tem peso maior do que nos países de renda alta.

Quais são os sintomas do derrame pleural?

Os sintomas dependem do volume de líquido acumulado e da velocidade com que ele se forma. Derrames pequenos (menos de 300 mL) frequentemente passam despercebidos, encontrados apenas em exames de imagem feitos por outro motivo.

Sintomas mais comuns quando o derrame é moderado a grande:

  • Dispneia (falta de ar), especialmente ao esforço, ao deitar (ortopneia) ou em algumas posições, dependendo da causa

  • Dor torácica pleurítica: dor que piora ao inspirar fundo, tossir ou espirrar

  • Tosse seca, geralmente irritativa, sem catarro

  • Fadiga e sensação de peso no peito

  • Taquicardia (coração acelerado) em casos mais volumosos

  • Febre pode estar presente quando a causa é infecciosa (ex: pneumonia, tuberculose)

Em derrames grandes, a falta de ar pode ocorrer em repouso. Em situações extremas (tamponamento pleural), pode haver colapso respiratório que exige drenagem de emergência.

Os sintomas associados à causa do derrame também costumam estar presentes: febre e calafrios (pneumonia ou tuberculose), edema nos tornozelos e fôlego curto ao esforço (insuficiência cardíaca), perda de peso não intencional e tosse com sangue (neoplasia).

Um sinal clínico clássico raramente explicado ao paciente: no derrame pleural, a pessoa tende a aliviar a falta de ar deitando-se sobre o lado doente, exatamente o oposto do que faz quem tem pneumonia. Esse comportamento (chamado de ortopneia lateral) ajuda o médico a suspeitar da condição durante a consulta, antes mesmo do exame de imagem.

Transudato ou exsudato: qual a diferença e por que importa?

A análise do líquido pleural é o exame mais importante para descobrir a causa do derrame. Os critérios de Light são o padrão-ouro para classificá-lo desde 1972.

Transudato: líquido com baixa concentração de proteínas e enzimas (LDH). Indica que o problema é sistêmico (pressão venosa alta ou proteína baixa no sangue). A causa costuma ser tratada clinicamente, com diuréticos para insuficiência cardíaca, por exemplo.

Exsudato: líquido com alta concentração de proteínas e LDH. Indica processo inflamatório, infeccioso ou neoplásico local. Requer investigação mais aprofundada: citologia, cultura bacteriana, pesquisa de BAAR (tuberculose), biópsia pleural.

Característica

Transudato

Exsudato

Proteína no líquido/sangue

< 0,5

> 0,5

LDH no líquido/sangue

< 0,6

> 0,6

Aspecto

Claro/amarelo-palha

Turvo, avermelhado ou leitoso

Causas típicas

ICC, cirrose, síndrome nefrótica

Pneumonia, TB, câncer, lúpus

Essa distinção evita tratamentos desnecessários: um transudato por insuficiência cardíaca não precisa de antibiótico. Um exsudato tuberculoso não melhora com diurético.

Como é feito o diagnóstico do derrame pleural?

O diagnóstico começa com a suspeita clínica (sintomas + exame físico) e é confirmado por exame de imagem.

Exames diagnósticos:

  • Radiografia de tórax: detecta derrames acima de 200 mL; o ângulo costofrênico fica borrado ou apagado (sinal clássico)

  • Ultrassonografia torácica, mais sensível que a radiografia, detecta derrames menores e guia a punção com maior segurança

  • Tomografia computadorizada (TC): detalha a extensão do derrame, avalia o parênquima pulmonar e identifica massas associadas

Após confirmar o derrame por imagem, a toracocentese diagnóstica retira uma amostra do líquido para análise laboratorial: o passo essencial para determinar a causa.

O diagnóstico segue etapas progressivas: da suspeita clínica até a análise laboratorial do líquido pleural.

Qual é o tratamento para derrame pleural?

O tratamento do derrame pleural é sempre direcionado à causa de base. Sem tratar o motivo do acúmulo, o líquido retornará mesmo após a drenagem.

Insuficiência cardíaca: diuréticos (furosemida) reduzem a sobrecarga de volume. O derrame costuma se resolver com o controle clínico da ICC. Sem necessidade de punção em casos moderados.

Pneumonia parapneumônica: antibióticos específicos para o agente causador. Derrames complicados (com pH < 7,2 ou cultura positiva) precisam de drenagem pleural.

Tuberculose pleural: esquema tuberculostático por 6 meses (rifampicina, isoniazida, pirazinamida, etambutol). Corticosteroides podem ser usados para reduzir sequelas fibrosas.

Derrame maligno: abordagem paliativa: toracocentese de alívio para sintomas, pleurodese com talco (colabamento das pleuras para evitar novo acúmulo), ou cateter pleural de demora permanente para drenagem ambulatorial.

Procedimentos:

Procedimento

Indicação

Notas

Toracocentese

Diagnóstica ou alívio sintomático

Guiada por ultrassom, ambulatorial

Dreno torácico

Derrame complicado, empiema

Internação necessária

Pleurodese com talco

Derrame maligno recorrente

Previne novo acúmulo

Cateter de demora

Derrame maligno refratário

Drenagem ambulatorial crônica


A toracocentese (punção) é perigosa?

A toracocentese guiada por ultrassonografia é um procedimento seguro e bem tolerado. Realizada com anestesia local, a agulha é inserida entre as costelas para drenar o líquido acumulado, geralmente em 15 a 30 minutos.

As complicações são incomuns quando o procedimento é feito com guia de ultrassom:

  • Pneumotórax (entrada de ar na cavidade): ocorre em menos de 1% quando guiado por ultrassom

  • Hematoma local, raro, geralmente autolimitado

  • Infecção, muito rara com técnica asséptica adequada

  • Edema pulmonar de reexpansão pode ocorrer quando grandes volumes (> 1,5 L) são drenados de uma vez

A maioria dos pacientes tolera bem o procedimento sem sedação. O desconforto é mínimo e o alívio da dispneia costuma ser imediato quando o volume era expressivo.

Muitos pacientes ficam apreensivos com a ideia de uma "punção no pulmão", mas tecnicamente a agulha não entra no pulmão: ela fica no espaço pleural, entre o pulmão e a costela. Com guia de ultrassom em tempo real, o pneumologista enxerga exatamente onde a agulha está em cada segundo do procedimento. É comparável em segurança a uma punção venosa periférica quando feita por profissional experiente.

Perguntas frequentes sobre derrame pleural

Derrame pleural tem cura?

Depende da causa. Derrames por insuficiência cardíaca controlada ou pneumonia tratada costumam resolver completamente. Derrames malignos não têm cura, mas podem ser controlados para manter a qualidade de vida. O prognóstico está atrelado ao diagnóstico e ao tratamento da doença de base.

Derrame pleural pode voltar depois de drenar?

Sim, se a causa não for tratada. Por isso, drenar sem tratar a origem é uma solução temporária. Em derrames malignos recorrentes, a pleurodese (colabamento das pleuras com talco) ou o cateter de demora são usados para evitar o reacúmulo.

Qual médico trata derrame pleural?

O pneumologista é o especialista principal. Em casos de derrame por insuficiência cardíaca, o cardiologista lidera o tratamento. Em derrames malignos, o oncologista participa. Cirurgiões torácicos são chamados para casos que requerem pleuroscopia ou pleurectomia.

Derrame pleural é o mesmo que pneumotórax?

Não. No derrame pleural, o espaço entre as pleuras se enche de líquido. No pneumotórax, esse espaço se enche de ar. Ambos comprimem o pulmão e causam falta de ar, mas têm causas e tratamentos diferentes.

É possível ter derrame pleural sem saber?

Sim. Derrames pequenos (até 300 mL) geralmente não causam sintomas e são encontrados incidentalmente em radiografia ou tomografia feita por outro motivo. O rastreamento ativo não é recomendado na população geral, mas qualquer falta de ar persistente merece investigação.

Considerações finais

O derrame pleural é sempre um sinal de alerta. Não é uma doença isolada, mas a consequência de algo que precisa ser investigado. Falta de ar persistente, dor ao respirar fundo ou tosse seca sem explicação merecem avaliação médica. Com diagnóstico rápido e tratamento direcionado à causa, a maioria dos casos resolve sem sequelas.

Está com sintomas respiratórios ou quer uma segunda opinião sobre um exame de imagem? Consulte um pneumologista pela Conexa Saúde sem sair de casa.

Quem orienta

Juliana Seixas

Médica de Família e do Trabalho

CREMERJ 52981249

Especialista em Medicina de Família pela UERJ. Médica do Trabalho pela Funorte. Pós graduanda em gestão de saúde pela FGV.

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